Curtis Mayfield, um dos mais talentosos artistas do século XX, era original tanto no papel de cantor e compositor como no de crítico social e pioneiro da música. A trilha sonora de Superfly, lançada em 1972, garantiu a Mayfield o aplauso da crítica e um grande público, mas, em 1975, a música negra americana estava se tornando um tanto pautada pela disco music e a maioria das canções eram simples celebrações hedonistas. Mayfield reagiu com There’s No Place Like America Today, uma triste crônica sobre a vida do negro no país. A capa mostra uma fila de pessoas negras que parecem diminuir de tamanho diante de um enorme outdoor de uma sorridente família branca. Recriada a partir de uma fotografia de Margaret Bourke-White, de 1937, a imagem resume o abismo entre o sonho americano e a realidade das ruas.
Como Marvin Gaye no épico What’s Goin’ On, Mayfield é inflexível ao retratar o dilema a seu redor, mas, de forma suave e firme, prega a esperança. A faixa de abertura, “Billy Jack”, conta a história de um marginal insignificante que acaba assassinado. “When Season Change”, com influência do gospel, reflete sobre o desespero que está por trás da pobreza. “So In Love” é uma linda canção de amor de Mayfield, enquanto “Jesus” fala da possibilidade de redenção espiritual. “Blue Monday People” é um apelo por mais amor e menos dinheiro; “Love To The People” traz uma mensagem positiva sobre amar sua própria gente.
No lançamento, o álbum mostrou que era capaz de atingir o público negro americano, mas – talvez sem surpresas – foi ignorado pelos brancos. Desde então, There’s No Place Like America Today tem repercutido um pouco mais.
“Superfly” de Curtis Mayfield
Curtis Mayfield se tornou parte da cultura soul dos Estados Unidos em 1961, quando o grupo vocal desse artista nascido em Chicago, The Impressions, começou a colecionar hits imortais nas paradas. Ele embarcou numa carreira solo em 1970, animando as pistas de dança de todo o mundo com a eufórica “Move On Up” (do seu álbum de estreia, Curtis). Seu som característico era suntuoso mas funky, com uma ótima orquestração que mesclava guitarra, cordas entusiasmadas, majestosos metais e ritmos fluidos. A cereja no bolo era o falsete sedoso de Mayfield, com o qual ele embalava comentários cáusticos sobre a América urbana.
Superfly foi o único álbum de Mayfield a chegar ao primeiro lugar das paradas. Era a trilha sonora do famoso filme de blaxploitation e denunciava exatamente aquilo que a fita corria o risco de glorificar. A sinfônica “Little Child Runnin’ Wild”, em tom menor, pinta um retrato pessimista da vida na cidade, com seus crescendos dramáticos dando lugar, em seguida, a “Pusherman”. Construída em torno de uma hipnotizante linha de baixo e batuques de conga, essa reportagem em primeira pessoa sobre o cotidiano das ruas prenuncia o gangsta rap. A música foi sampleada por Ice-T em “I’m Your Pusher”, de 1988. A arrebatadora “No Thing On Me (Cocaine Song)”, influenciada por ritmos latinos, é um poderoso manifesto contra as drogas, mas os melhores singles são “Freddie’s Dead” – esse desenho pingente, à base de flauta, de uma personalidade chegou ao quarto lugar – e a faixa-título (oitavo lugar).
Mayfield nunca mais alcançaria o sucesso comercial deste disco – There’s No Place Like America Today, de 1975, é uma pérola pouco valorizada. Em agosto de 1990, uma tragédia: Mayfield ficou paralisado do pescoço para baixo, depois que o equipamento de iluminação desabou sobre ele. O suave gigante da música do século XX morreu em 26 de dezembro de 1999, aos 57 anos.
Erasmo Junior
fmanha.com.br